Em Campo Grande de outrora, assalto registrou cenas “do velho oeste” com troca de tiros

Fausto Brites

 “Teje presos!”, ordenou o delegado Licínio Moreira de Almeida aos dois homens que tomavam cerveja, ocupando uma mesa na calçada de um bar, na Rua José Antônio, nas proximidades da antiga Feira Central de Campo Grande.  Três agentes da Polícia Civil o acompanhavam.

Um dos homens colocou o copo na mesa, levantou-se devagar e, repentinamente, sacou um revólver e começou a atirar, enquanto o outro saiu correndo.

Os policiais João Ramos e Cacildo Inácio de Melo foram feridos: o primeiro com um tiro no peito, e o segundo, na coxa. Mesmo assim, houve revide e o assaltante também foi baleado. O segundo não conseguiu ir longe, pois foi atingido por tiros e detido por um policial militar que passava pelo local, no momento.

Dia do episódio: 26 de março de 1975. E a forma de abordagem quem me contou foi o
próprio delegado Licínio.

Tudo começou logo pela manhã. Ao chegar na Delegacia Central de Polícia, na Rua 14 de Julho esquina com a 7 de Setembro, um dos policiais me avisou:

– Fique de sobreaviso porque “parece” que vai ter um assalto. O esquema tá preparado prá prender os caras (sic).

Um alcaguete (informante da polícia) tinha avisado que quatro homens assaltariam um funcionário do Banco Itaú, quando este passasse pelo cruzamento das ruas Barão do Rio Branco e 13 de Maio levando uma maleta para o Banco do Brasil.

Assim, foi montada uma operação para prender os criminosos.

O gerente foi avisado de que dois policiais acompanhariam o funcionário, às 15h50min, quando fosse ao BB, enquanto, no quadrilátero formado pelas ruas Barão do Rio Branco, 13 de Maio, Dom Aquino e Avenida Calógeras, ficariam a postos diversos agentes da Polícia Civil para fazer o cerco.

No horário marcado, os policiais chegaram à agência bancária e foram informados de
que o funcionário tinha sido dispensado. Assim, o esquema foi desmontado. Ocorre que o gerente decidiu mandar outro funcionário levar a maleta com cheques fora do horário combinado. E o assalto acabou acontecendo.

O desprotegido funcionário, quando chegou no cruzamento – indicado pelo alcaguete –, foi atacado por três homens. O guarda Guilherme Zurutuza, de uma empresa particular de segurança, tentou impedir o assalto e foi baleado no tornozelo. Reagiu e atirou nos marginais, que não foram atingidos e entraram em dois carros, um Chevette e um Maverick, fugindo em alta velocidade.

Diante disso, houve novamente grande mobilização da polícia, revoltada com a
imprudência do gerente. Foi pedido apoio à Polícia Federal, para auxiliar nos trabalhos que pudessem levar à prisão dos criminosos.

Enquanto o delegado regional seguiu para Sidrolândia, pois havia informações de que os assaltantes teriam fugido para aquele município, Licínio Moreira de Almeida recebeu a visita de um morador da Vila Marcos Roberto, que tinha achado a maleta onde só foram encontrados os cheques roubados.

Na maleta foram encontrados apenas os cheques roubados (Foto: Reprodução)

Novamente entrou em cena o alcaguete, que forneceu o nome de um dos suspeitos e, inclusive, onde era a residência dele: Rua José Antônio. O acusado era um conhecido viciado em drogas e tinha registro na polícia. Acompanhado dos agentes João Ramos, Cacildo Inácio de Melo e Miguel Anunciato, Licínio dirigiu-se para o endereço e, fazendo a ronda pelas proximidades, encontrou os dois assaltantes, quando, então, houve o tiroteio.

Um dos marginais usava documento falso. O caso foi descoberto quando o Correio do Estado publicou a reportagem e um cidadão procurou a redação, dizendo que tinha perdido sua carteira de identidade.

Apesar da falsificação grosseira do documento, a polícia não se atentou para esse detalhe e divulgou o nome para a imprensa. Posteriormente, o assaltante foi identificado e sua ficha era longa: condenado a 20 anos de reclusão em São Paulo, tinha fugido e voltado para Mato Grosso (o Estado não havia sido dividido), onde roubou veículos e participou do assassinato de um pecuarista no centro de Campo Grande. Os dois policiais e a dupla de assaltantes foram internados. Os outros dois marginais conseguiram fugir e não foram encontrados.

O inspetor João Ramos, que ficou internado por algumas semanas em estado grave, não resistiu e faleceu no hospital. O agente Cacildo recuperou-se do ferimento à bala.

Um dos marginais, depois de um período internado, foi encaminhado para a cadeia pública. Já ooutro foi atingido por um dos tiros na coluna e ficou tetraplégico. Ele pediu, posteriormente, transferência para presídio do Rio Grande o Sul, onde morreu ainda cumprindo pena.

(Publicada no jornal Correio do Estado no dia 30 de novembro de 2015)