… E Campo Grande ganhou ‘‘favela oficial’’

Por Fausto Brites

Favela do Segredo, também conhecida como Favela do Querosene. Assim era chamado um núcleo de moradias formadas por barracos em plena área central da cidade, às margens do Córrego Segredo, depois da Avenida Marginal, atual Avenida Ernesto Geisel. Centenas de famílias ocupavam – ilegalmente – a área, que se iniciava na Rua 26 de Agosto, até o local onde hoje está o Horto Florestal, entre a atual Avenida Ernesto Geisel e a Rua Anhanduí. A prefeitura tinha de desocupar o trecho, uma vez que estava fazendo a canalização do córrego, e homens e máquinas teriam de transitar por lá, na execução dos serviços.

A mudança representaria o surgimento da primeira favela oficial de Campo Grande. Em um domingo, estivemos no local – o chefe de redação Antonio João Hugo Rodrigues, Montezuma Cruz e eu – para fazer a reportagem que foi publicada no jornal Correio do Estado, no dia 13 de abril de 1976. A favela estava prestes a ser removida.

Por que removida? Na realidade, as famílias seriam levadas para outra área, onde ergueriam seus barracos. Não ganhariam casa: cada um receberia um lote e ficaria responsável por construir sua respectiva moradia. O prefeito da época, Levy Dias, anunciou uma “ajuda de custo” de 1.500 cruzeiros para quem efetivamente morasse na favela. Isto porque a especulação imobiliária era a olhos vistos. Muitas pessoas haviam construído barracos e os alugavam para famílias. O local escolhido foi um terreno amplo, nas proximidades da Vila Nhá Nhá.

Os que resistiam em sair alegavam que o local era distante, pois, até então, estavam no centro da cidade, em que podiam trabalhar sem gastar com ônibus ou recolher material reciclável. Além disso, a favela era próxima ao Mercado Municipal Antonio Valente (o Mercadão), no qual tinham facilidades para recolher legumes, frutas e outros tipos de mercadorias que eram descartadas por serem impróprias para a venda. Algumas  famílias acreditavam que a mudança seria salutar. Outras pessoas, porém, não se importavam com mais nada. Para elas, mudar ou permanecer ali era “tudo a mesma coisa”. Conforme a reportagem publicada no dia 13 de abril de 1976, assim foi descrito o local: “A Favela do Segredo é formada por cerca de 100 casebres, cada um tendo uma média de seis moradores, dos quais, várias crianças de idades variáveis. Alguns possuem um poço de onde retiram uma água esbranquiçada e poluída, enquanto outros utilizam o córrego. As casas foram construídas precariamente, com pedaços de madeira, de latas, de materiais velhos, panos e até mesmo portas de automóveis velhos e que fazem as vezes de portões. Todos vivem em condições sub-humanas e a mudança pode favorecer vida melhor para os favelados”.

Na edição do dia 14 de maio do mesmo ano, a informação era de que a favela não mais existia. Segundo a reportagem daquela data, “apenas um barraco – a proprietária está doente – falta desaparecer para que a Favela do Querosene passe, definitivamente, à história de Campo Grande. Os 84 barracos restantes já foram levados pelos donos ou para o terreno da prefeitura na Vila Nhá Nhá (a minoria), ou para terrenos próprios (a maioria). Ontem, o prefeito Levy Dias informava que felizmente a mudança transcorreu normalmente, afora alguns incidentes pequenos e transtornos naturais, o que já era esperado.

Dos 85 favelados, quase 55 preferiram receber os 1.500 cruzeiros oferecidos pela municipalidade e mudaram-se para seus terrenos próprios ou mesmo foram para outras cidades. Enquanto isso, na Vila Nhá Nhá, como se esperava, a ‘favela oficial’ está perfeitamente adaptada. Seus moradores não reclamam e sentem-se felizes em saber que o terreninho de 8 metros por 12 de fundo, reservado a cada família, pela municipalidade, pode até mesmo ser cercado a conveniência de cada um (…)”.

No dia 27 de maio, voltei à “favela oficial” e, em conversa com os moradores, a diferença era nítida. Muitos disseram que o lugar era bom e tranquilo. Só lamentavam que os terrenos não fossem deles. Os antigos barracos de lona ou de outros tipos de materiais haviam sido substituídos por pequenas casas de madeira. Estavam contentes porque tinham “transporte coletivo na porta” e várias escolas na região, o que possibilitava que os filhos estudassem “perto de casa”. Algumas famílias já estavam se preparando para cultiva hortas e pomar. Era o primeiro passo para um vida menos pior.

Publicada no jornal Correio do Estado no dia 16 de novembro de 2015 na coluna “40 Anos de Leads e Lida”, de Fausto Brites)