Bruxa da Sapolândia

A reportagem, de autoria da jornalista Beatriz Longhini, foi publicada no dia 3 de outubro de 2013 no Portal de Notícias Correio do Estado.

No dia 31 deste mês se comemora o Halloween, mais conhecido no Brasil como o “Dia das Bruxas”. As manifestações são mais comuns nos países anglo-saxônicos, em especial nos Estados Unidos. Mas, nos anos 70, Campo Grande (MS) também teve sua bruxa, conforme a imprensa noticiou à época. Nada, porém, para se comemorar dado a tragédia que representou o episódio na então pacata Cidade Morena .

Ainda hoje, algumas pessoas dizem que não passa de lenda. Outras, ouvem comentários a respeito sem ter convicção de que realmente teria ocorrido.

Mas não se trata de lenda ou ficção.

O caso teve grande repercussão na cidade e ficou conhecido como os crimes da Bruxa da Sapolândia, uma mulher que foi presa acusada de matar crianças – vítimas de maus tratos e desnutrição – e que eram enterradas nos fundos de sua casa, numa área de brejo.

A mulher ganhou essa denominação nas manchetes dos jornais que associaram seus atos a das bruxas das histórias infantis – a mulher má que prendia criancinhas – mas com a realidade cruel: a morte de ao menos dez crianças, noticiou-se.

Por morar num bairro conhecido como Sapolândia, a associação foi inevitável. Afinal, além do corvo amigo, as bruxas – conforme os gibis – tinha o sapo como animal apropriado para poções maléficas.

‘Cemitério’ no brejo

O jornalista Fausto Brites, do Portal Correio do Estado foi testemunha dessa história, quando adolescente. O ocorrido pode parecer ficção, mas foi uma realidade, afirma.

“O cenário era perfeito para um filme de terror”, diz o jornalista que esteve na casa da Bruxa da Sapolândia. Movido pela curiosidade, ele que morava na Rua Engenheiro Alírio de Matos, no Bairro Taquarussu, foi com alguns colegas e os irmãos mais velhos até o local. “A casa era de tábua, sem pintura e ficava às margens de um trilheiro que levava ao bairro. O terreno fazia fundos com o brejo e ali era onde criou-se o cemitério das crianças”, conta.

Segundo o jornalista, os pequenos caixões, que ela mesmo fazia, eram de  ripas de madeira. Os corpos das crianças eram enrolados em redes ou colchas velhas. “Cheguei com meus amigos e irmãos logo depois da prisão da mulher. Havia uns cinco caixões ainda ao lado dos buracos. Estavam sujos de lama, assim como os tecidos. Os corpos já tinham sido retirados, mas os tecidos, usados como mortalhas, foram deixados. Como era brejo, daquelas sepulturas improvisadas minavam água. As muitas árvores no local criavam aquele clima de pântano de filme de horror. Fiquei impressionado”.

A Bruxa da Sapolândia morava com um rapaz que também foi preso. “Quando chegamos na casa, havia um homem que estava tentando fazer uma moto funcionar. Ele depois entregou a chave para os policiais e foi levado dali na viatura. Umas pessoas que estavam próximas gritavam que ele era o ‘bruxo’. Não sei se era o marido dela, ou não”.

Um dos jornais na época, publicou a foto da mulher, já presa, caída numa das celas da delegacia. “A matéria dizia que ela tinha entrado em transe”, afirma o jornalista. Passados os dias os jornais não deram mais sequência ao caso. “Mas a história da Bruxa da Sapolândianão caiu no esquecimento”,diz Fausto Brites.

Segundo ele, ainda hoje recebe telefones de acadêmicos em jornalismo, principalmente, qurendo saber  informações a respeito do caso. “Embora já naquela época eu sonhasse em ser jornalista, eu era adolescente e minhas recordações são da visita à casa da mulher e do que os jornais publicavam na época”, explica.

Mas ele é categórico em afirmar que o caso é verdadeiro. Sobre a mulher, o jornalista explica que existem algumas versões a respeito, desde que teria morrido no presídio até que, passados alguns anos na cadeia, mudou-se da cidade para o interior do Estado.

“É como você fechar o livro de histórias de bruxa, quando se é criança, e elas (as histórias) ficam em sua mente, no início causando temor profundo; depois, já adulto, você dá boas risadas. O caso da Bruxa da Sapolândia, porém, não é para se dar risada. Ela  não tinha nariz adunco ou verruga no rosto e seu cabelo não era coberto por um chapéu preto. Mas, pela tragédia a qual foi acusada de ter protagonizado, com certeza ainda continuará sendo lembrada por muito tempo”, frisa Fausto Brites.

Texto: Jornalista Beatriz Longhini