Amor que cruzou estados

Por Fausto Brites

“Eu não vou na sua casa/Prá você não ir na minha/Você tem a boca grande/Vai comer minha farinha”

‘‘Marmelo é fruta gostosa/Que dá na ponta da vara/Mulher que chora por homem/Não tem vergonha na cara’’

A primeira trova ecoava na roça de feijão, por um grupo de famílias. A segunda, era de outro ‘‘time’’ que se encontrava na mesma lida. Cantoria que servia para lembrar que tinham deixado pessoas queridas em estados distantes e, ao mesmo tempo, imaginar o ‘‘tempo passando mais rápido’’. Todos na lavoura eram nordestinos que, desde 2009, tem o dia dedicado a eles: 8 de outubro. A lembrança do ‘‘embate com versos’’ é da dona de casa Dalva dos Santos Morais, 71 anos, natural de Simão Dias, município situado no chamado Polígono das Secas do Estado de Sergipe. Sentada na varanda de sua casa, na Vila Célia em Campo Grande, olhando para um amplo quintal com bananeiras, mangueiras e flores dos diversos tipos, ela fala dos tempos de dificuldades dos retirantes daquela região do país.

O local das trovas ao ar livre: Camapuã (MS), onde aos 18 anos ela chegou com os pai, a madrasta e os quatro irmãos. A seca no Nordeste era cruel e expulsava as famílias de suas terras. ‘‘A tal da seca, que durava tempos, trazia com ela a miséria na garupa’’, diz com os olhos distantes como se recordasse do seus tempos de garota, com pouca diversão, e muito trabalho na roça que a família, às duras penas, ‘‘tocava’’ mesmo enfrentando a falta d’água. ‘‘Dava-se um jeito’’, afirma. E com esse jeito que a família conseguia o milho, o feijão, o algodão e criava ovelha e cabritos. Parte da produção era para ‘‘o nosso sustento’’ e, a outra, para ser comercializada na tradicional feira de Simão Dias, segundo ela. Era época do escambo onde uma galinha, por exemplo, era trocada por feijão em quantia acordada entre as partes.

Conta que, um certo dia, seu pai chegou em casa e disse que venderia ‘‘o nosso pedaço de terra’’ para buscar a ‘‘fartura’’ em outro Estado. Dalva deu ‘‘graças a Deus’’ porque não iria ouvir mais os aterrorizantes urros das onças que muitas vezes rondava pela casa de pau a pique no sertão em que moravam. ‘‘Não gosto nem de lembrar daquilo’’, afirma. O pai, que costumava viajar para Feira de Santana, na Bahia, era comerciante de verduras. Em um caminhão alugado, levava os produtos para lá, mas ‘‘não ganhava muita coisa, não’’, diz. Incentivado pelos amigos pernambucanos, Cícero e Elpídio, tomou a decisão. ‘‘Ele, então, vendeu a terrinha de qualquer jeito (a preço baixo)”.

PAU-DE-ARARA


Dalva e família embarcaram num caminhão pau-de-arara levando malas com algumas peças de roupa, os documentos e um pouco de dinheiro do que sobrou depois de pagas as contas. Viajaram até Feira de Santana onde outro casal estava aguardando. ‘‘Pegamos um ônibus para São Paulo e, de lá, fomos para o Rio de Janeiro. Pegamos outro ônibus e viemos para o Mato Grosso (o estado não era dividido)”. Quando chegaram em Campo Grande todos foram levados ao município de Camapuã. Viajaram em um caminhão até a cidade e, de lá, partiram para para trabalhar na roça. Foram recebidos por um rapaz ‘‘muito gentil’’ – segundo Dalva – que estava em um cavalo. O cavaleiro cavalheiro era Elpídio Feliciano Morais, pernambucano de Panelas. Foi amor a primeira vista do jovem prestativo e que resultou em casamento no dia 2 de outubro de 1958.

AMIGOS, DEPOIS SOGRO E GENRO

O interessante é que Elpídio já conhecia o pai de Dalva, embora não sabia que ele tinha ‘‘uma filha  tão charmosa’’.  Ele e o futuro sogro fizeram amizade em Feira de Santana. O amigo e ele é quem convenceram o pai de Dalva a vir para Mato Grosso. Os dois deixaram Pernambuco antes e, naquele ano de 1958, todos estavam reunidos em uma terra distante e o solteiro Elpídio, apaixonado. Do primeiro olhar até o pedido da mão em casamento foram apenas 15 dias. O cupido: o amigo Cícero. No casamento não teve festa. ‘‘Nem um cafezinho’’, diz Dalva. Presentes? “Ganhei meia dúzia de xícara e duas travessas”.

Depois do casamento – com direito a véu e grinalda – ela e o esposo foram para uma casa de sapê que ele tinha construído. ‘‘Saí por aquele arremedo de rua arrastando o vestido de noiva pela terra’’. A lua de mel foi seguida de trabalho. ‘‘Nós chegamos na época de derrubar mato para fazer as lavouras. Colocamos a enxada nas costas e fomos prá roça no dia seguinte ao casamento”, disse ela.

Quando o primeiro filho tinha seis anos, Elpídio e Dalva decidiram iniciar uma nova jornada de ‘‘melhoria de vida’’. Foram para a região de Porto Vilma, em Dourados, onde tinham comprado ‘‘pedaço de terra’ para lavoura, mas acabaram frustrando-se pois ‘‘era um areião só’’. Venderam tudo. ‘‘Recebemos até uma bicicleta como parte do pagamento’’. De Porto Vilma estabeleceram-se em Vilas Vargas, também na região da Grande Dourados, e foram morar em uma casa de farinha, ‘‘tocando’’ roça em Panambi.

dalva

A vida não era fácil até que um cunhado de Dalva os convidou para morar em Campo Grande: venderam a casa de tábua de duas peças e foram morar na Vila Célia. “A gente está aqui até agora’’. Hoje, Dalva passa o tempo em pequenos afazeres de casa e sempre tem um café pronto.

Elpídio faleceu em 2010, vítima de um atropelamento,aos 83 anos. Ela diz que ele era ‘‘um marido muitcho bom’’ e ‘‘um pai melhor ainda’’ de Eliel, Elenildo, Eliuda, Eli e Enilda. E sobre o por quê dos filhos terem os nomes iniciados com a letra ‘‘E’’ a resposta é uma pergunta: ‘‘Elpídio começa com que letra, oxente!?’”. É  realmente muito amor

  • Dona Dalva hoje está com 83 anos e ainda muito lúcida
  • (Publicado originalmente no jornal Correio do Estado)